S. JOÃO DO PORTO
Festas populares
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S. João do Porto, eremita
natural do Porto, ( séc. IX ), viveu a sua vida eremítica na
região de Tuy, em frente a Valença, tendo sido sepultado em Tuy.
No séc. XVII ainda aí se conservavam as sua relíquias, de grande
veneração entre os fieis, que acreditavam que S. João os salvaria das
febres. Diz a tradição , que a cabeça de S. João do Porto, foi trazida
pela Rainha Mafalda no séc. XII, para a Igreja de São Salvador da Gandra
e que parte dessa relíquia teria sido levada para a capela da " Santa
Cabeça ", na Igreja de N ª Sra. Da Consolação, na Cidade do Porto. O
facto da sua festa se ter celebrado a 24 de Junho talvez explique o
facto de ter o seu culto sido absorvido pelo de S. João Baptista, cujo
nascimento ocorreu no mesmo dia 24 de Junho e a que o povo dedicou
através dos tempos forte devoção e grandes festas, mantendo-se ainda
hoje muito viva a tradição das fogueiras de S. João de origem muito
antiga, ao mesmo tempo que substituíam as festas pagãs do solstício.
Festas de forte caris
popular, o S. João do Porto é uma festa que nasce espontaneamente, nada
se encontra combinado, embora a festa se vá preparando discretamente
durante o dia, é normalmente depois do jantar, constituído por sardinhas
assadas, batatas cozidas e pimentos ou entrecosto e fêveras de porco na
brasa, acompanhadas de óptimas saladas , jantar obviamente regado com
vinho verde ou cerveja, mais modernamente. Findo o jantar, os
grupos de amigos começam a encontrar-se, organizando rusgas de S.
João, como são chamadas. As pessoas muniam-se de alhos
pôrros e molhos de cidreira , actualmente as armas, são outras,
mudaram para martelos de plástico, duros e ruidosos, mas que acabaram
por ser bem aceites e hoje já fazem parte da tradição, Há alguns anos
atrás, o S. João limitava-se a uma área da cidade que era constituída,
pelas Fontaínhas ( Ponto nevrálgico ), R. Alexandre Herculano, Praça da
Batalha, R. Santa Catarina, R. Formosa ou R. Fernandes Tomás, R. de Sá
da Bandeira, R. Passos Manuel, Praça da Liberdade, Av. dos Aliados, R.
dos Clérigos, Praça de Lisboa, e no retorno, subindo-se a R. de S.
António, estava praticamente concluído o percurso obrigatório. A par
deste percurso, que juntava para cima de meio milhão de pessoas, que
tornavam as ruas pejadas de gente, e onde não há atropelos, as
zaragatas são de imediato sustidas pelos populares, os
beligerantes rapidamente selam a paz com mais um copo e uma pancada de
alho pôrro de amizade. O S. João do Porto é uma festa onde ricos e
pobres convivem uma noite de inteira fraternidade e onde a festa é
constante. Nos bairros, a festa continua e as comissões organizadoras de
cada uma mantém o baile animado até altas horas da madrugada. No
tempo áureo do alho pôrro quem chegasse ao Porto vindo de fora,
estranharia o odor espalhado pela cidade...efectivamente ela cheirava a
alho.
Nos dias de hoje, o S. João
espalhou-se pela cidade, além do seu palco tradicional, estendeu-se até
a Ribeira, ás Praias da Foz , á Boavista e por ai fora. Vai as
discotecas, aos pubs e bons restaurantes. Tornou-se mais cosmopolita e
em alguns casos mais selectivo . Modernizou-se, sofisticou-se e de certa
forma, acompanhou os tempos ,até penso que se tornou mais jovem. Mas muita da tradição ainda se mantém: Em barracas ou espalhados pelo chão lá estão os manjericos ( Planta tradicional do S. João ) , as tendas das fogaças, as farturas, o algodão doce, as pipocas, as barracas da sardinha assada e dos comes e bebes. Os matraquilhos, os carroceis, as pistas dos carros. As tendas de venda das louças de barro, das cutelarias, o tiro ao alvo e as tômbolas. Durante toda a noite, centenas de balões são lançados e muito fogo de artificio particular é queimado, pela meia-noite o tradicional fogo de artificio da Câmara Municipal, faz sempre furor pela sua beleza. No fim e já alta madrugada é ver os foliões procurarem as padarias onde o pão acabado de fazer e ainda quentinho vai confortar as barrigas para um merecido descanso.
A História de um Feriado
( Texto original, publicado na Revista Ponto de Encontro de Julho de
2001 )
Os festejos de S. João na cidade do Porto são já seculares e a origem
desta tradição cristã remonta mesmo a tempos milenares. Mas foi só no
século XX que o 24 de Junho passou a ser feriado municipal na Invicta,
proporcionando um merecido dia de folia a milhares de tripeiros. E tudo
graças a um decreto republicano e a um referendo aos portuenses,
promovido pelo Jornal de Notícias. A história é curiosa e mostra o
protagonismo que, já na altura, a Comunicação Social tinha no modus
vivendi urbano. Estávamos em Janeiro de 1911 e a República Portuguesa
dava os primeiros passos. A monarquia tinha sido destronada apenas três
meses antes, com a revolução de 5 de Outubro de 1910. O Governo
Provisório da República assumia a governação do país e, desde logo,
começava a introduzir mudanças na sociedade portuguesa que espelhavam,
muito naturalmente, os ideais da nova ordem republicana. Numa tentativa
de implementar a nova ordem junto da população, o Governo Provisório
redefiniu os dias feriados em Portugal. Por decreto, a República
instituiu como feriados nacionais o 31 de Janeiro (primeira tentativa -
falhada - de revolução republicana, em 1891, no Porto), o 5 de Outubro
(instauração da República) e o 1º de Dezembro (restauração da
independência em 1640), para além do Natal e do Ano Novo. Mas o mesmo
decreto impunha, a cada município do país, a escolha de um dia feriado
próprio: "As câmaras ou commissões municipaes e entidades que exercem
commissões de administração municipal, proporão um dia em cada anno para
ser considerado feriado, dentro da area dos respectivos concelhos ou
circumscripções, escolhendo-os d'entre os que representem factos
tradicionaes e característicos do município ou circumscripção". E foi
com este propósito que a Comissão Administrativa do Município do Porto
reuniu a 19 de Janeiro de 1911. Segundo o relato do Jornal de Notícias,
o "velho e conceituado republicano, sr. Henrique Pereira d'Oliveira"
logo sugeriu a data de 24 de Junho para feriado municipal. O facto não
causa espanto. Afinal de contas, o S. João era, já na altura, uma festa
com longa tradição na cidade do Porto. A primeira alusão aos festejos
populares data já do século XIV, pela mão do famoso cronista do reino,
Fernão Lopes. Em 1851, os jornais relatavam a presença de cerca de 25
mil pessoas nos festejos sanjoaninos entre os Clérigos e a Rua de Santo
António e, em 1910, um concurso hípico integrado nos festejos motivou a
presença do infante D. Afonso, tio do rei (a revolução republicana
apenas se daria em Outubro).
Referendo popular
Contudo,
a sugestão de Henrique d'Oliveira de eleger o S. João como feriado
municipal da Invicta foi contestada por outros membros da Comissão
Administrativa do Município do Porto, que mostraram opiniões diversas.
Foi então que "o sr. dr. Souza Junior lembrou, inspirado n'um alto
princípio democrático, que não devia a Commissão deliberar nada sem que
o povo do Porto, por qualquer forma, se pronunciasse em tal assumpto".
Para solucionar o imbróglio, o Jornal de Notícias dispôs-se a organizar
um surpreendente referendo popular para escolher o feriado municipal.
Logo no dia 21 de Janeiro, somente dois dias após a reunião da Comissão
Administrativa, foi colocado na primeira página do jornal o anúncio da
"Consulta ao Povo do Porto", explicando toda a situação e a forma de
participação. As pessoas teriam que enviar, até ao dia 2 de Fevereiro,
"um bilhete postal ou meia folha de papel dentro de enveloppe" para a
redacção do jornal, com a indicação do dia de sua preferência. E, para
recompensar o trabalho dos leitores, o Jornal de Notícias oferecia "dez
valiosos premios" - o mais valioso era de 10 mil réis, cerca de cem
escudos - a serem sorteados de entre todos aqueles que votassem no dia
eleito. Nos dias seguintes, o Jornal de Notícias fez o relato diário da
emocionante votação. A vitória foi quase só discutida entre o dia de S.
João, já com larga tradição na cidade, e o 1º de Maio, Dia do
Trabalhador, a que não será alheio o facto de a cidade do Porto ser
considerada "a capital do trabalho". No dia 22 de Janeiro já se davam
conta dos primeiros resultados: "a votação de hontem, que foi grande, dá
maioria ao 1 de Maio, seguido pelo 24 de Junho (S. João) e N. S.
Conceição [8 de Dezembro]". No dia 24 - o Jornal de Notícias não foi
publicado no dia 23, segunda-feira, porque o matutino encerrava ao
domingo! -, deu-se uma reviravolta nos resultados: o 24 de Junho trocava
de lugar com o 1º de Maio, ficando na posição de mais votado. Porém, a
25, num dia em que "a votação cresceu imenso", o 1º de Maio quase
passava novamente para a liderança da votação. Mas foi no dia 26 de
Janeiro que o resultado da votação começou a ficar definido, ao que
muito se deve a forte participação popular do dia anterior, como relata
o Jornal de Notícias desse dia: "Só hontem vieram tantos votos como em
todos os dias anteriores. O dia de S. João tem enorme maioria. O dia 1
de Maio já está muito em baixo". E, a 27, o próprio jornal já dava como
certo o vencedor: "Positivamente o dia mais votado é o de S. João. O dia
1 de Maio fica muito para trás. Augmenta bastante o de N. S. Conceição".
Durante os dias seguintes foram publicados os resultados provisórios
diários, sem que tivesse havido alterações de maior no sentido de voto
dos portuenses. Até que, a 4 de Fevereiro de 1911, foram publicados os
totais finais da consulta popular: o dia 24 de Junho foi o mais votado,
com 6565 votos, seguido pelo 1º de Maio, com 3075 votos, o dia de Nossa
Senhora da Conceição, com 1975 votos, e o dia 9 de Julho, com oito.
"Ficou, pois, vencedor o dia de S. João que é aquele que o povo do Porto
escolhe para ser o de feriado municipal". Só não se sabe se o vencedor
do sorteio chegou a receber os seus 100 escudos, pois registada só ficou
a promessa de que "o sorteio dos 10 prémios a que esta consulta dá lugar
far-se-á em um dos próximos dias"...
Texto originalmente publicado na revista "Porto de Encontro", Julho de
2001.
Deixo aqui um convite para
quem nunca visitou o Porto nesta altura. Venha, apareça, seja bem vindo,
dia 23 pela tarde pois a festa começa na véspera . O S. João é uma festa
sem igual e garanto-lhe uma noite bem divertida e diferente. VIVA O S.
JOÃO.
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