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Recuperação do Palácio do Freixo e áreas
envolventes
Textos de : F. Távora e J. B. Távora
A - Definido ao longo de estudos anteriores o conjunto de edifícios e
espaços a recuperar; tendo como motivação central o Palácio do Freixo,
classificado como Monumento Nacional, consideram-se no presente Projecto
as áreas de intervenção seguintes que constituem o referido conjunto e
objecto de processos separados:
1 - Palácio do Freixo e Áreas envolventes.
2 - Áreas envolventes e arranjos exteriores na Zona do Freixo.
3 - Desvio da E .N. 108 na Zona do Freixo.
4 - Pavilhão das Descobertas e Parque de Estacionamento.
B - No que se refere ao Palácio do Freixo e Áreas envolventes
Interessou-nos não apenas a sua situação e forma física mas também o seu
significado de valor cultural, enquanto obra de arte projectada por
Nicolau Nazoni, mas, igualmente, a presença do tempo e do uso como
definidores e criadores da sua forma actual, isto é, a consideração do seu
espaço em termos do seu tempo.
C - Encontrámos, assim, quatro fases ou tempos da história do Palácio: o
da sua edificação, cerca de 1750, e sua vivência pelo Deão da Sé do Porto;
o da sua aquisição, em meados do século XIX por António Afonso Velado,
depois Barão e Visconde do Freixo; o da sua nova aquisição para instalação
da fábrica de Moagens Harmonia e construção desta no fim do século XIX;
finalmente o da sua venda ao Estado, cedência posterior à Câmara Municipal
do Porto e decisão da sua recuperação para sede da Área Metropolitana.
D - A leitura do edifício relativa à sua primeira fase revela um
cuidadoso, amplo e seguro projecto, adoptando o modelo de uma "villa"
renascentista, tardio embora, que ocupa um ponto elevado sobre o rio e se
abre sobre os quatro pontos cardeais, gerando eixos interiores da sua
planta que se projectam sobre a paisagem exterior, assim consequentemente
estruturada.
- De destacar uma clara definição de cada uma das suas quatro fachadas, a
qualidade do seu tratamento exterior e a sua relação com os espaços
internos; uma obra de grande dignidade e marcada presença que constitui o
mais notável edifício civil produzido pelo seu autor.
- Em relação à arquitectura do mesmo tipo corrente na época, em Portugal,
e sobretudo no norte do país, é de notar o facto de se tratar de um
projecto total e unitariamente realizado, o que não acontece por exemplo,
na Prelada, e de o seu programa de espaços exteriores e interiores
corresponder claramente ao de uma casa de campo - ou de recreio - em claro
contraste com a residência do Deão em Vandoma, junto da Sé Catedral e em
pleno centro da cidade medieval.
E - Na sua segunda fase o edifico é quase e totalmente mantido no que toca
aos seus espaços exteriores próximos e na estrutura espacial dos seus
espaços internos, excepto, porventura, no que se refere a volumetria do
sector norte e ao regime de acessos verticais. Mantidos embora na
generalidade os espaços internos, eles são, entretanto, tratados com
estuques, pinturas e carpintarias à maneira da época, subvertendo a
granítica sobriedade Nazoniana, outrora compensada seguramente pela
pintura a fresco, de que restam envergonhados exemplos.
- Uma fábrica de sabão edificada a poente da quinta anuncia já o próximo
destino do sitio.
F - Com efeito, vendidos o Palácio e jardins próximos para a instalação de
uma fábrica de Moagens, construída esta e utilizado o edifício para
residência da direcção perde-se parte da sua envolvente, é afectado na sua
leitura exterior e na clareza da sua implantação e não devidamente
conservado no seu interior onde, possivelmente, são realizados alguns
pequenos trabalhos de conservação ou relativos a instalações da cozinha e
de peças sanitárias.
G - Na sua última e actual fase o edifício prosseguiu o seu destino:
abandonado como residência - factor contribuinte para a situação actual -
sofreu algumas obras por parte dos Edifícios e Monumentos Nacionais,
relativas a cobertura e caixilharias, após o inicio de um incêndio, e
encontrava-se em progressivo processo de degradação, requerendo, assim,
intervenção urgente. Encontrava-se sem destino.
H - Embora não tenha sido fornecido um programa rigoroso para a
reutilização do Palácio do Freixo, o que se compreende, uma vez que pela
sua natureza o edifício dispõe de forte estrutura compartimental, cremos
que o estudo apresentado é garante da inteligência da decisão assumida
para a sua nova função. Com efeito, e quanto a nós, ele poderá satisfazer
eficazmente o seu novo destino, não tanto quanto a instalação de serviços
de natureza administrativa - que deverão ocupar outro lugar - mas quanto á
sua representatividade, quer pelo valor do edifício e seus espaços
externos quer pela sua situação.
I - Assim, poderá ler-se a proposta relativa ao arranjo de espaços
envolventes próximos - acesso pelo norte, agora como acesso principal,
pátios nascente e poente, como acessos secundários, esplanada e jardins
sobre o rio, a sul; clara, igualmente, se torna a proposta relativa a
muros exteriores contendo os respectivos pátios.
J - Para além das referidas como anexas ao Palácio do Freixo constituem
igualmente Áreas Envolventes as restantes a Norte do conjunto e as
situadas numa extensão de cerca de 200 m entre os edifícios do Palácio e
do Pavilhão das Descobertas. As áreas situadas a Norte são separadas pelo
novo acesso e diferentes na sua morfologia; a Nascente encontra-se o morro
em cuja encosta foi implantado o Palácio: assim protegido e enquadrado no
terreno, olhando o Rio; a Poente um terreno baixo no qual se inserem as
fozes de dois pequenos rios, o Tinto e o Torto que aí desembocam no Douro.
A área situada entre os dois edifícios, de forma rectangular, será
organizada segundo uma sucessão de espaços - pátios, na continuação da
solução preconizada por Mestre Nicolau; cria-se, assim, um elemento de
percurso que se debruça sobre o Douro e permite uma aproximação controlada
de qualquer dos edifícios que o limita. . Finalmente, a cota inferior,
oferece-se ainda um amplo espaço de cais desenvolvido no sentido Nascente
- Poente que garante o acesso ao Rio. O tratamento vegetal dos espaços em
referência é fundamentalmente arbóreo no sector Norte, constituindo-se em
protecção climática e motivo de enquadramento, continuidade e limitação da
paisagem; tal vegetação arbórea será mais rara e menos anónima no sector
entre os dois edifícios e junto do Rio.
K - A Variante à E.N.108 surgiu como necessidade de desvio do tráfego
automóvel que actualmente atravessa a área atribuída ao Conjunto,
perturbando grandemente a sua tranquilidade.
Trata-se, afinal, de obter uma solução semelhante a de outrora, uma vez
que a via actual era
um percurso privado da quinta depois tornado público. . A solução
encontrada, tomando em conta a beneficiação da frente de acesso e a posse
de terreno do morro a Norte, consistiu na criação de uma envolvente,
aproveitando e beneficiando três extensões de via existentes e criando uma
quarta que reencontre o traçado antigo junto ao rio. . Das três extensões,
e caminhando de Poente para Nascente, a primeira e a segunda terão perfil
transversal semelhante com separador central e a terceira, reduzindo
embora a sua pendente acentuada, consiste no alargamento de uma via
existente. Uma quarta extensão a construir; no sentido Norte - Sul, faz a
ligação com a marginal existente. Dotada de passeios para peões, em parte
arborizados a via apresenta no seu traçado valores regulamentares e prevê
uma passagem superior para inversão de trânsito e acesso à Casa de Vilar
D'Allen, recentemente classificada. Foram intenções da solução proposta as
de melhorar os traçados existentes, rever o seu perfil transversal, marcar
com dignidade o acesso ao Palácio, Pavilhão, Estacionamento e Jardins,
garantir acesso à Fábrica Harmonia e ao Museu da Indústria e da Ciência, a
Nascente, e, finalmente, encontrar um traçado merecedor de aprovação por
parte das diversas entidades.
L - Já anteriormente proposto na sua localização, implantação e
volumetria, o Pavilhão das Descobertas adquiriu agora a sua formalização
em fase de Projecto. Ocupando o extremo poente do conjunto projectado, a
200m da fachada do Palácio, e com acesso principal pela alameda que separa
- e que une os dois edifícios - o Pavilhão, dimensionado em planta segundo
um módulo quadrado de 30m de lado, semelhante ao que no séc. XVIII
estabeleceu Nicolau Nasoni, desenvolve-se em quatro pisos e dispõe, no seu
total, de uma área bruta de 6.400m2.
M - Na ausência de um programa rígido, mas apenas (de um destino, de um
local e de uma área, foi intenção do estudo conceber um edifício que, para
além de responder ao seu enquadramento, natural e construído, proporcione
espaços de exposição de dimensões variáveis, flexíveis no seu
aproveitamento, com expressão e identidade próprias mas capazes de receber
a infindável variedade de temas, de percursos e de dimensões de
actividades diversas. Espaços de exposição a que se associam outros de
diversa natureza, complementares mas indispensáveis à completa e variada
utilização do edifício.
N - Passados quatro anos de estudos e projectos e três anos de obra, a
variante à E. N. 108
funciona já, o Pavilhão das Descobertas não está construído. O Palácio do
Freixo e jardins
envolventes estão concluídos. Sem destino. |